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Estudo do Comsefaz superestima perdas com bets em 69% e ignora dados oficiais, aponta análise

Pesquisa que calculou R$ 62,5 bilhões em perdas das famílias com apostas esportivas usa metodologia questionável e difere em 69% da receita bruta reportada à SPA. Entenda os erros apontados.

Atualizado em ago 1, 2026 por Redação SafeCasinoCompare 18+ jogo responsavel
Comparação entre estimativa de perdas do Comsefaz e dados oficiais da SPA para 2025, destacando diferença de 69%
Comparação entre estimativa de perdas do Comsefaz e dados oficiais da SPA para 2025, destacando diferença de 69%
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A cifra de R$ 62,5 bilhões em “perdas” das famílias brasileiras com apostas esportivas em 2025 ganhou destaque na imprensa e em discursos políticos, mas uma análise detalhada da metodologia usada pelo Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda) revela problemas graves. O número, publicado no 3º Update do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, diverge em 69% da receita bruta oficialmente declarada pelos operadores à Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, que foi de R$ 36,96 bilhões – um dado administrativo, não uma estimativa.

O levantamento, assinado pelo Comsefaz em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, classifica a cifra como “ordem de grandeza”, mas foi frequentemente tratado como medição precisa. A BNLData aponta falhas que comprometem o uso do estudo para políticas públicas e para o debate sobre regulação.

Pontos principais

Indicador Valor
Estimativa de perdas (Comsefaz) R$ 62,5 bilhões
Receita bruta oficial (SPA-MF) R$ 36,96 bilhões
Diferença percentual 69%
Base da estimativa Fluxos Pix para categoria “artes, cultura, esporte e recreação” (EPAE/BC)

O número que circulou na imprensa

O boletim do Comsefaz calcula as “perdas” a partir de transferências via Pix de pessoas físicas para pessoas jurídicas classificadas pelo Banco Central na categoria “artes, cultura, esporte e recreação” (Seção R da CNAE). O problema é que esse agregado inclui academias, clubes, produtoras de eventos, cinemas, plataformas de streaming e outros negócios sem qualquer relação com apostas. O modelo ARIMA treinado com dados até agosto de 2024 projeta o comportamento “normal” da série; todo excesso acima da projeção é atribuído às bets. Mas qualquer crescimento orgânico de outros setores (eventos pós-pandemia, streaming) infla automaticamente o número atribuído às apostas.

Como a estimativa foi construída

Os pesquisadores usaram dados do sistema Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (EPAE) do Banco Central. O modelo ARIMA, descrito nas páginas 38 a 40 do boletim, isola o que seria o fluxo esperado sem a regulamentação das bets (janeiro de 2025). Tudo que supera essa projeção é interpretado como “efeito bets”. No entanto, a série já mostrava inflexão a partir de agosto de 2024 – antes da regulamentação entrar em vigor – atribuída pelos autores a adequações antecipadas de empresas. Isso significa que o período de treinamento do modelo já pode conter parte do fenômeno que se pretendia isolar, inflando artificialmente o efeito medido.

Os quatro equívocos metodológicos

A análise do BNLData identifica quatro problemas principais:

Imprecisão da categoria de dados – “Artes, cultura, esporte e recreação” inclui atividades sem relação com apostas, e o modelo não separa o componente específico.
2. Confusão entre bruto e líquido – O volume bruto adicional estimado é de R$ 350,97 bilhões, e o líquido (perdas) de R$ 62,5 bilhões. A mídia chegou a tratar o bruto como perda das famílias.
3. Comparação entre grandezas diferentes – O dado da SPA (R$ 36,96 bi) é administrativo, declarado por operadores licenciados. A cifra do Comsefaz é inferência macroeconométrica sujeita a especificação de modelo, período de treinamento e qualidade da série.
4. Afirmação de causalidade sem evidência – O descolamento estatístico é tratado como transferência das famílias para o setor, mas faltam dados administrativos das casas de apostas ou quase-experimentos que isolem o efeito da regulamentação.

Discrepância com dados oficiais

A receita bruta de R$ 36,96 bilhões reportada pela SPA-MF para 2025 é um valor verificado: operadores licenciados declararam ganhos sob regras contábeis e sujeitos a fiscalização. Já os R$ 62,5 bilhões do Comsefaz são uma projeção indireta. A diferença de 69% não é explicada pelo tamanho do mercado ilegal de apostas, o que sugere que o modelo pode estar superestimando o impacto real.

O boletim não cita os dados oficiais da SPA e não apresenta testes de sensibilidade que permitam avaliar a estabilidade do resultado. Sem variações de período de treinamento ou exclusão de outliers, o número fica sem contraponto.

Por que isso importa para o apostador brasileiro

Para quem acompanha a regulamentação das apostas no Brasil, a precisão dos dados é essencial. Números inflados podem levar a decisões políticas baseadas em premissas erradas, como aumento de tributação ou restrições que impactem operadores regulares. O apostador precisa saber que a estimativa de R$ 62,5 bilhões não é um fato consolidado – foi calculada com base em uma categoria ampla de pagamentos, sem validação contra registros oficiais.

A recomendação é tratar o número com cautela. Enquanto o Comsefaz não ajustar sua metodologia para isolar exclusivamente o setor de apostas e confrontar os dados com a SPA, a cifra continuará sendo uma estimativa de ordem de grandeza, não uma medição confiável.

Fonte: BNLData – “Comsefaz estima ‘perda’ das famílias com bets em R$ 62,5 bi, mas metodologia é falha e ignora dados oficiais da SPA” (https://bnldata.com.br/comsefaz-estima-perda-das-familias-com-bets-em-r-625-bi-mas-metodologia-e-falha-e-ignora-dados-oficiais-da-spa/)